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  • Foto do escritorJandira Pillar

Quando as cortinas se abrem

    Maio de 2023. Subo a escada que leva à sala de aula de uma turma preparatória para o curso de medicina no pré-vestibular em que atuo há mais de 25 anos e ouço vozes de alunos que comentam sobre a reunião que decidirá o retorno (ou não) do concurso vestibular da UFSM. Em 2014, essa forma de ingresso foi substituída pelo Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Entro em sala e dou início à aula, mas sou interrompida por uma aluna que assistia à reunião pelo celular: “Gente, o vestibular da UFSM voltooou!”

Tento, quase sem sucesso, manter o foco. Ao final da aula, desço as escadas e saio para o Calçadão, a caminho do Centro de Assessoria em Produção Textual, espaço de minhas aulas particulares. Vou andando devagar, e meu pensamento volta ao passado, quando minha história de professora de redação de cursos pré-vestibulares começou.

Era o final do ano de 1994, e os professores dos “cursinhos” realizavam os famosos “aulões”. Eu era professora de escola pública e havia iniciado recentemente em um deles, com uma turma pequena. Por ser iniciante no disputado contexto, ficara combinado que eu não participaria dos “aulões”. Imaginei que, por não ter o perfil dos professores da época (não saber contar piadas e ser extremamente tímida), os contratantes estariam querendo me poupar do quase certo “fracasso”.

No auditório lotado, eu observava com admiração os professores no palco, os quais, com performances engraçadas, faziam a apresentação dos conteúdos, arrancando risadas dos alunos. O objetivo era fazer os estudantes memorizarem a matéria e, ao mesmo tempo, relaxarem das tensões do ano.

Quando chegou a vez de meus colegas de área, fui para perto da escada que dava acesso ao palco e, dos bastidores, espiei a plateia. Havia mais de 3.500 alunos. Sedentos, eles anotavam os conteúdos que eram apresentados em slides coloridos e comentados pelos professores. Mal percebi quando uma professora me empurrou para o palco, gritando: “Vai lá, Jandira. Vai dar dicas de redação! É o teu momento!”. Surpresa, olhei para ela; neguei com a cabeça. Tarde demais. Já no palco, um colega me passou o microfone e gritou para os alunos: “Pessoal, a professora de redação vai dar dicas para a prova de amanhã”.

A vontade foi sair correndo, mas algo me segurou ali. Lembrei de um texto que havia lido aos alunos como motivação para a escrita: “Toda manhã na África, uma gazela se levanta. Sabe que terá de correr mais que o leão ou será morta. Toda manhã na África, um leão se levanta. Sabe que precisará correr mais que a mais lenta gazela ou morrerá de fome”. Por um segundo, pensei: e eu? Serei leão ou gazela?

Indecisa entre “avançar” ou “recuar”, olhei novamente para a plateia. Ela era infinitamente maior do que eu imaginara. Silêncio. Os alunos aguardaram e percebi, de longe, colegas de outras disciplinas que haviam parado para assistir.

Então, algo mágico aconteceu. Lembrei das noites em claro que passara estudando as provas de redação da UFSM (e de outras universidades). Com dois filhos pequenos, meu pai com câncer e tendo de trabalhar para sustentar a família, eu dormia as minhas costumeiras três horas e levantava para estudar, corrigir redação e colocar o trabalho em dia.

Pensei nos alunos. Eles não eram mais alunos. Eram jovens guerreiros que lutavam arduamente para realizar o sonho de ingressar na universidade. Vi rostos cansados e olhos esperançosos. Entendi que a tão disputada vaga na universidade federal era um sonho, o “pote de ouro no fim do arco-íris”.

Não tive mais dúvida: ajeitei o microfone na cabeça e iniciei minha “aula”. “Na prova de redação da UFSM, você precisa identificar o tema, elaborar uma tese e buscar argumentos coerentes para defendê-la. Qual é a sua tese? O que sustentou você até aqui? O desejo de ser aprovado. Então, leia atentamente a prova, planeje o texto. Não tenha medo. Amanhã, será o momento de cada um que lutou e acreditou no seu sonho”.

Foram exatamente 15 minutos. Ao final deles, retirei o microfone e aguardei. Então, ouvi os aplausos; finalmente respirei. Havia criado a conexão com meus alunos.

De lá para cá, nas situações mais desafiadoras, fortaleci-me nesta conexão, no afeto que me permitiu me construir enquanto professora de redação. Na “plateia”, sempre havia alunos para quem eu tinha a missão de apresentar os resultados dos meus estudos. Na defesa de Mestrado (2000), por exemplo, apresentei para eles a “estrutura argumentativa”, que me possibilitou qualificar seus argumentos; na defesa de Doutorado (2013), apresentei a “identidade”, que me permitiu “enxergar” o sujeito geralmente fragilizado que se “esconde” atrás do texto.

Nos infindáveis processos de escrita/reescrita de meus próprios textos e na leitura/releitura de inúmeras redações, descobri que a minha palavra-chave não é problema, é SOLUÇÃO.  Assumi o compromisso de não só identificar o problema nos textos, mas também (e principalmente) apontar caminhos para qualificar a escrita de meus alunos.

Mais de 25 anos depois daquela entrada no palco, encontro, nos corredores dos cursinhos, guerreiros memoráveis que lutam contra o cansaço, a insegurança, a saudade de casa. E eu? Como o leão e a gazela, continuo a cumprir minha missão de orientá-los no caminho em direção ao sonho.

O caminho foi fácil? Não para mim; não para eles. Porém, a cada aprovação, vi e continuo vendo o brilho nos olhos, senti e sinto a alegria nas palavras que chegam em mensagens.

A lição? Aprendemos juntos que a escrita do texto ideal – a redação satisfatória - é um processo contínuo que ultrapassa as fronteiras da aprovação na universidade.

Por isso, estude muito! Estude sempre! Assim, quando as cortinas se abrirem, quando a sua oportunidade chegar (mesmo que seja com um empurrão), você não terá medo! Escolherá  “avançar” e será o protagonista de sua história.

 

 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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