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  • Foto do escritorJandira Pillar

O que é público é aberto a toda comunidade e diz respeito às necessidades reais da população?

Seguindo o fio do assunto da semana passada, hoje eu gostaria de trazer aqui a sugestão de um filme muito interessante para pensarmos sobre o papel da biblioteca e sobre a noção do que é público e o que não é. O filme que venho recomendar foi gravado em 2018, com o título “O Público” (The Public).

O filme gira em torno de uma biblioteca pública de Cincinnati, em Ohio, a qual é bastante frequentada por moradores de rua e por pessoas com desordens mentais. Um inverno intenso leva os frequentadores a quererem utilizar o espaço, dito público, como local de abrigo de emergência e, assim, eles se recusam a sair para não morrer de frio nas ruas da cidade. O protagonista é o bibliotecário, que aceita a decisão dos frequentadores mais pobres, colocando-se, então, ao lado deles nas suas reivindicações. A polícia acaba sendo acionada, e a situação se transforma em um forte protesto com repercussões políticas e midiáticas. São muitos os temas que podem ser debatidos a partir deste filme, mas aqui vou focar apenas em dois pontos que considero relevantes: o conceito de público e o uso social das bibliotecas. Público, do latim publicus, significa “relativo ao povo”, de populus, “povo”. Também adquiriu o significado de “aberto a toda a comunidade”, em oposição àquilo que é “privado”. Nesse contexto, a exigência dos manifestantes, embora pareça absurda aos olhos de alguns personagens (e aos nossos também possa parecer), é simples: eles só querem permanecer aquecidos e não morrer de frio lá fora. Lembrando que o enredo se passa em Cincinnati, Ohio, onde as mortes de moradores de rua durante o inverno são muito frequentes, infelizmente. Então, surge a inquietação: embora seja chamada de “biblioteca pública”, até que ponto o que é público é aberto a toda comunidade e diz respeito às necessidades reais de um povo? Afinal, se o que é público deve ser voltado a atender à sociedade, não seria de se esperar que estes espaços, ditos públicos, pudessem ser adaptados quando necessário para suprir as demandas sociais? Deslocando-nos para a realidade do nosso país, deparamo-nos com esse tema espinhoso e complexo, por isso, igualmente interessante e necessário: o uso social das bibliotecas no Brasil. Como sabemos, as bibliotecas não têm sido os espaços públicos mais bem aproveitados das últimas décadas. Historicamente, o país possui incontáveis entraves para fazer da leitura e dos espaços de leitura algo cativante e, até mesmo, acessíveis a toda a sua população. Durante muitos anos, a imagem da biblioteca era associada a um local de castigo e de punição, e o livro tinha uma imagem de instrumento de elitização por causa do custo. As pessoas colocavam os livros nas salas de visitas para demonstrar que tinham conhecimento e eram consideradas intelectuais. Ter livros era sinônimo de ter poder e conhecimento. O livro era para ser preservado, e não apreciado. Já na década de 50, iniciou-se o que podemos chamar de escolarização da biblioteca pública, que passou a dar prioridade para o atendimento estudantil em detrimento a outros segmentos da comunidade que também necessitavam dos serviços bibliotecários. Os recursos humanos existentes nas bibliotecas públicas atendiam aos estudantes, e os recursos financeiros eram aplicados no livro didático e na compra de dicionários e enciclopédias.

Hoje em dia, ter acesso à informação é tão crucial como ter serviços de saúde. Além disso, a informação não está apenas nos livros, então, temos que ter em mente que, para as populações carentes, a informação oral costuma ser mais acessível que a informação bibliográfica. Nesse contexto, entendemos que à medida que as bibliotecas públicas conseguirem implantar um serviço de informação utilitária, daremos um grande passo em direção à inclusão, contribuindo para a formação da cidadania, e, então, estes espaços poderão se tornar reais centros disseminadores da informação e peças-chave do aparato de melhoria social e de redução da desigualdade. Afinal, qual é a função de uma biblioteca? Será que existe só uma resposta para esse questionamento? Fontes: FolhaScielo / Papo de Cinema

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